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| Regina Lima |
Territórios, fronteiras e mobilidades na Amazônia: como pensar uma política pública de comunicação para Estado do Para
“Quando chegamos à Transamazônica, em 1972, trazidos pelo Governo Médici, fomos assentados em lotes de terras ao longo dos travessões abertos perpendicularmente à nova rodovia. De todas as dificuldades encontradas na nova terra, uma nos entristeceu prontamente: os militares proibiam o assentamento contíguo de famílias de um mesmo Estado ou Região. Assentava-se, por exemplo, uma família de mineiros, depois uma de maranhenses, logo depois uma de goianos e assim por diante. Nunca poderiam ser assentados vários maranhenses num mesmo travessão. Uma única exceção se verificou nos assentamentos próximos à Rurópolis, Presidente Médici: os gaúchos resistiram à esta regra e puderam ser assentados num único travessão de forma continuada. Esta nova colônia aqui na Amazônia recebeu o nome de linha gaúcha. Não tendo a mesma sorte dos gaúchos, nós, nordestinos, sofremos na pele para nos adaptarmos à nova pátria. Foi terrível. Foi um choque cultural sem precedentes. Tivemos que conviver com diversos modos de vida, diversas culturas, sem contar as dificuldades de entender o próprio idioma, o próprio português que era falado de formas diferentes por migrantes de cada região”.
O relato acima, feito por um dos pioneiros da Transamazônica, Sr. José Ferreira Araújo, mais conhecido como Sr. Dudu, abre este ensaio, pela oportunidade que nos oferece de repensar os conceitos aqui propostos neste primeiro observatório de mídia, quais sejam: territórios, fronteiras e mobilidades na Amazônia, bem como pela possibilidade de levantar, a partir dele, algumas questões para começar a pensar uma política de comunicação pública para o Estado do Pará.
No que diz respeito às definições tradicionais destes conceitos, gostaríamos de ressaltar que os processos de formação de territórios e de destruição e criação de fronteiras estão, a nosso ver, muito mais vinculados aos aspectos culturais do que às concepções puramente geográficas, ou mesmo políticas, cristalizadas no período de constituição dos estados-nação. Os aspectos culturais são, portanto, essenciais para a própria sobrevivência dos povos migrantes em terras desconhecidas.
Afora isso, as definições tradicionais destes conceitos são extremamente contraditórias, à medida que negam que processo de migração, por si só, provoca inevitavelmente desterritorialização, ou seja, a perda da relação “natural” da cultura com os territórios geográficos e sociais e provoca ainda uma reterritorialização, ou melhor, uma relocalização territorial relativa, parcial das velhas e novas produções simbólicas. Dito isso, não podemos, a partir desta constatação, ter mais a visão de território e fronteira apenas como delimitações geográficas.
Um trecho do relato do Sr. Dudu se encaixa muito bem no que queremos dizer:
“nós, nordestinos, sofremos na pele para nos adaptarmos à nova pátria. Foi terrível. Foi um choque cultural sem precedentes. Tivemos que conviver com diversos modos de vida, diversas culturas, sem contar as dificuldades de entender o próprio idioma, o próprio português que era falado de formas diferentes por migrantes de cada região.”
Observe-se que ele não reclamou, em nenhum momento, das agruras físicas por que passou, como picadas de insetos, fome, malária, etc. A sua dor maior foi se vê mais uma vez separado dos seus. O que significava ter de viver longe de sua terra sem ter ao menos a possibilidade de exercer suas práticas culturais. O mesmo processo vivido pelos índios quando foram obrigados a se deslocar do traçado das grandes rodovias abertas na Amazônia, o que os obrigava a se apartar de seus territórios e ligações antropológicas com seus ancestrais.
Sem contar ainda que o processo migratório que marcou o período de colonização das rodovias Transamazônica e Santarém-Cuiabá (BR-163), associado aos aspectos políticos como a intervenção em determinadas regiões do Pará, num primeiro momento, e depois o abandono da região pelo Governo Central, aliado a dificuldade do poder estadual em substituir a União nestas áreas, gerou uma realidade de abandono e um forte sentimento de não pertencimento a uma cultura, muitas vezes mais forte do que os
aspectos econômicos e geográficos bem distintos. Este fato, talvez, seja o principal responsável pelo desejo permanente de separação do estado em algumas regiões do Pará.
Falar, portanto, de território e fronteira numa região como a Amazônica e num Estado, em particular, enorme e geograficamente diverso como o Pará, requer, sobretudo, não esquecer que o Pará é historicamente delimitado por culturas já sedimentadas num processo de mais de 400 anos ou por culturas que se constroem a partir de um processo migratório muito recente, como é o caso das regiões sul, sudeste e parte do oeste do Estado.
Diante disso, qualquer política de comunicação pública para uma região e um estado, marcados por conflitos de toda ordem, principalmente conflitos agrários, por sentimentos de não pertencimento e separação muito fortes, não pode, de forma alguma, desconhecer, primeiro, a importância desse fluxo migratório para o Estado, e, conseqüentemente, o papel deste outro como elemento essencial na constituição das identidades paraenses.
Tem que ser uma política de comunicação pública que se contraponha, inclusive, as atuais redes de comunicação, com forte tendência a padronização das culturas, gostos e linguagens. São redes que desfocam, opacizam a diversidade cultural do país e de cada região e procuram, acima de tudo, apagar toda e qualquer diferença. Um exemplo clássico é o apagamento de sotaques nas notícias que veiculam nas principais redes de comunicação nacional. Fato, aliás, que revela o interesse dessas redes em padronizar culturalmente o país, desconhecendo as diferenças regionais. Outro exemplo é a própria obsessão pela audiência, fortemente associada à tentativa destas redes de unificarem a percepção cultural a partir de um único olhar, quando a idéia , em verdade, é oferecer diferentes olhares para que a sociedade construção sua própria percepção da realidade. |