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| Alda Cristina Costa |
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Mídia e Violência
“Cada pessoa, mergulhada em si mesma, comporta-se como se fora estranha ao destino de todas as demais. Seus filhos e seus amigos constituem para ela a totalidade da espécie humana. Em suas transações com seus concidadãos, pode misturar-se a eles, sem no entanto vê-los; toca-os, mas não os sente; existe apenas em si mesma e para si mesma. E se, nestas condições, um certo sentido de família ainda permanecer em sua mente, já não lhe resta sentido de sociedade.”
Tocqueville |
Resumo:
O presente artigo objetiva servir como reflexão sobre a importância da mídia no tratamento dispensado à violência, que, na maioria das vezes, trabalha no campo do entretenimento, banalização, sensacionalismo e espetacularização.
1. Reflexões
É pertinente fazer algumas considerações que suscitamos como relevantes a respeito do campo midiático e do tratamento dispensado à temática violência. Percebemos que programas de natureza policial, enveredam por um caminho diferenciado do chamado jornalismo investigativo. Esta categoria jornalística tem a finalidade de buscar os temas, analisar e preparar, estudar as possibilidades de investigação, procurar por fontes adequadas a fornecer a informação pretendida e perseverar no trabalho até conseguir as provas de que necessita.
O jornalismo investigativo deve ter sempre presente que o valor das informações é lhe dado exclusivamente pela capacidade que tem de provar os feitos de que se dispõe a denunciar. A integridade do profissional é verificada através da neutralidade e imparcialidade deste. Precisa adotar uma atitude neutra, isto é, renunciar a deixar-se levar por sua ideologia e limitar-se a mostrar apenas os fatos que possa comprovar.
Essa categoria de jornalismo se inscreve como uma das mais importantes contribuiçõs prestadas pela imprensa à democracia. Ela está especificamente relacionada com a lógica de responsabilidade mútua em sistemas democráticos, ou seja, fornece um mecanismo valioso para monitorar o desempenho das instituições democráticas, incluindo organismos governamentais e a sociedade civil como um todo.
Notamos, claramente, que no caso de programas de caráter policial há a predominância do sensacionalismo e sem a preocupação em preservar ou seguir as regras que demandam de um bom jornalismo investigativo. Matérias que não podemos nem denominar de investigativas, pois ficam na periferia da questão, onde a informação, ao ter como pilastra o espetáculo, constrói a realidade sob a égide da descontextualização, concentrando-se pois, apenas na superficialidade dos fatos, atenuando o compromisso com a verdade – questão suprema no jornalismo – associando-se somente ao artifício daquilo que se parece com a verdade ou se assemelha com o verdadeiro.
O importante é apelar ao emocional, e esse convite permeia o campo do escândalo, do
show, promovendo o espetáculo e levando o telespectador ao divertimento, mesmo que estejamos tratando de questões sociais extremamente sérias. Esse showrnalismo, expressão cunhada de Arbex Jr., objetiva exibir, mostrar, destituindo o jornalismo de seu potencial de permitir ver e revelar.
O presente artigo tem como preocupação refletir sobre o papel da mídia e a violência, especificamente na questão da cobertura e tratamento dado à questão. O que se percebe ainda, é que grande parte desses programas policialescos tratam a violência como espetáculo, privilegiando um arranjo orquestrado na produção, tendo como destaque, cenários, matérias, personagens e publicidade, em detrimento da discussão série e contextualizada, com dados e especialistas. Todos esses fatores compõem um todo na construção dos acontecimentos, determinando de forma coesa a teatralidade, pois os programas acabas se constituindo numa encenação, cujo objetivo principal é o entretenimento do público.
2. A violência e a sociedade contemporânea
Compreender o fenômeno da violência na sociedade contemporânea requer um profundo levantamento, tanto do ponto de vista teórico quanto analítico, como forma de dar conta da complexidade da questão. Não é fácil e nem pontual tratar sobre o assunto, pois é necessário compreender suas formas diferenciadas de manifestação. Temos que levar em consideração que ela tem uma história, tanto quanto tem uma geografia e uma sociologia; que ela assume formas diferentes em períodos históricos diferentes.
É importante identificar que diversos conceitos são trabalhados acerca da violência, que vai desde o sagrado, passando pela questão do poder até como função fundadora da sociedade, além de outros mecanismos explicativos para encontrar conexões que trabalhem a questão de forma mais precisa.
A violência é hoje um dos fenômenos sociais que mais angustiam as pessoas em sociedade, pois ela atinge a todos, independente de classe social. Somente para se ter uma idéia do que é essa violência no Brasil, o sistema de saúde contabilizou que, entre 1980 e 2004, 797 mil brasileiros foram assassinados. Por ano, aproximadamente 50 mil pessoas são vitimas de homicídio. A taxa de violência letal é uma das mais altas do mundo, atingindo 27 homicídios por 100 mil, habitantes. Países da Europa Ocidental têm taxas de dois ou três homicídios por 100 mil habitantes.
No Relatório Anual de 2006, do Ministério da Justiça – Departamento Penitenciário Nacional, consta que o Brasil tem a quarta maior população do mundo de encarcerados, com 401.236 detentos, distribuídos em 1.076 estabelecimentos penais. Entre os presos brasileiros, 84,6% encontram-se nos sistemas penitenciários (339.580) e 15,5% estão nas secretarias de Segurança Pública (61.656). Entre os presos que se encontram nos sistemas penitenciários, 94,9% são homens e 5,1% são mulheres. Em 2003, segundo levantamento, 41,5% dos presos no sistema penitenciários têm até 30 anos, 69,5% haviam cursado o ensino fundamental incompleto e 10,4% eram analfabetos. A maior causa de condenação no país é o roubo (24%), seguido de tráfico de drogas (10,5%), furto (9,1% e homicídios (8,9%).
Afinal qual o significado real da violência?
Para a Organização Mundial de Saúde, a violência implica:
uso intencional da força física ou do poder, real ou potencial, contra si próprio, contra outras pessoas ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação. (PINHEIRO,2003, p. 16)
Já Yves Michaud vai centrar seus estudos, afirmando que:
há violência quando, numa situação de interação um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou mais pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses ou em suas participações simbólicas e culturais. (MICHAUD, 1989, p. 11)
Nas duas definições podemos perceber a questão do dano psicológico, claro que de maneira diferentes, mas de Michaud é mais ampla, pois atende aquilo que estamos nos reportando aqui, que é a violência simbólica. Violência essa, que inserida em vários campos, atua também na seleção e na pauta das notícias, na edição, na produção e na apresentação dos programas televisivos.
Dentro dessa temática plural que é a violência diversos questionamentos são levantados, inclusive, suscitando assim preocupações prementes na vazão que esses tipos de programas de gênero policial, dão como visibilidade à violência. Queremos ressaltar que há uma limitação desse tipo de programa, pois restringe sua atuação em grande parte a pequenos delitos ou fatos cotidianos, sem trabalhar conteúdos investigativos, impossibilitando uma discussão mais profunda sobre a questão. Até porque as matérias não recebem tratamento jornalístico mais apurado e interpretativo, que permita uma análise mais contextualizada da problemática na sociedade.
Nossas percepções sobre assunto, têm como base a análise de alguns programas dessa natureza, inclusive regionais que, optam em entreter o seu público telespectador através do cenário criado em torno da violência. Informar não é o objetivo principal, mas chamar a atenção de forma até grotesca para fatos cotidianos da miséria humana. A diversão passa a ser a tônica a comandar os blocos de apresentação dos programas, pois cada inserção é misturada com fatos policiais, brincadeiras e propagandas. Não há uma desvinculação desses elementos, e sim, uma complementariedade entre eles.
Neste sentido, a lógica a ser operada pelo campo jornalístico, será a lógica comercial que induz a uma subordinação do interesse público ao interesse do público, mas com base naquilo que trará retorno em termos de audiência. Em outras palavras, importa menos o significado político, econômico, cultural, social, entre outros, do acontecimento, interessando mais a sua capacidade de despertar a curiosidade e prender a atenção do público.
Sabemos que de uma forma geral, o campo jornalístico e os programas televisivos vão ser orientados pelas leis de mercado, ou seja, todos os esforços serão empreendidos e voltados, fundamentalmente, para o alargamento das audiências, com forte apelo ao consumo. Daí, como metodologia de atração e persuasão, o espetáculo passa a abarcar o campo televisivo como um todo, pois se insere no padrão cultural consagrado na mídia, cujo viés é o entretenimento. A natureza desse modelo foi copiada do jornalismo televisivo norte-americano, cujo alcance rompe barreiras e lógica, em maior ou menor grau, penetra os demais meios, tornando-se tendência hegemônica entre os produtos jornalísticos de informação geral, destinados a um grande público. Assim, a televisão, campo fértil da informação-espetáculo, pelo conjunto de atributos que possibilita construir esse gênero, conciliando imagem e som, é responsável pela criação de padrões de gosto e de consumo, levando o conjunto da mídia informativa a imitá-la, tanto quanto possível, no conteúdo e na forma.
E a partir dessa conciliação que se constrói a sociedade do espetáculo, aquela que na visão de Debord:
Sob todas as suas formas particulares – informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos -, o espetáculo constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade. È a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e o consumo que decorre dessa escolha. Forma e conteúdo do espetáculo são, de modo idêntico, a justificativa total das condições e dos fins do sistema existente. O espetáculo também é a presença permanente dessa justificativa, como ocupação da maior parte do tempo vivido fora da produção moderna (1997, p. 14).
Nesta perspectiva, acreditamos que há um empobrecimento desse campo, pois os fatos perdem o contexto com a realidade, pois as informações são pontuadas de formas fragmentadas e desconexas, criando apenas uma certa familiaridade com o público, mas não permitindo o conhecimento dos mesmos das causas que provocaram ou foram responsáveis por tais fatos.
É interessante observar que, a base dos programas que primam pelo trivial em detrimento do real, será o espetáculo, a informação será associada de forma conexa e central ao entretenimento e a realidade assume aspectos de ficção, com a exploração do sensacionalismo e a banalização da violência. Assim, o espetáculo será o mecanismo do processo de construção jornalística, empregado pelos programas, uma fórmula que, longe de refletir a realidade, vai fragmentá-la, tendo como apoio as imagens televisivas que vão encenar a vida real.
É dentro deste contexto que se inserem alguns programas de gênero policial, pois o conteúdo trabalhado não tem o objetivo de discutir – via televisão – campo de força extremamente poderoso na sociedade, as questões que “perturbam” o dia-a-dia dos indivíduos, em particular os das pessoas carentes. A desgraça e a miséria, isso sim, são acontecimentos que vão protagonizar o gênero policial, mas não com a intenção de reflexão, apenas como fatos cotidianos e engraçados que podem chamar a atenção do público que se identifica com aqueles acontecimentos.
Dessa forma, também constatamos um empobrecimento do jornalismo, pois há uma quebra de fronteira entre informação e publicidade, seriedade e comicidade. A realidade passa a ser vista sob a ótica do engraçado, do grotesco, do comum e, principalmente, do natural, ou melhor, os acontecimentos são narrados ou estereotipados de acordo com os interesses daquilo que pode seduzir o público.
A sedução que na sua raiz é um conjunto de qualidades e características que despertam em outrem simpatia, desejo, interesse, fascínio e magnetismo, terá sua capacidade ampliada do campo da informação para o campo da persuasão, ou seja, é preciso atrair de modo capcioso ou através do estímulo ao consumo para manter ou ampliar o público telespectador.
Que mecanismos corroboraram para chegarmos a conclusão de que a violência, em programas de “estilo” policial, objetivam o entretenimento? A violência acaba sendo retratada como uma simples ou outra questão qualquer, não recebendo assim, nenhum tratamento sério nas argumentações jornalísticas. Numa avaliação geral, a construção das mensagens dá a entender que as coisas acontecem porque os indivíduos são culpados, o meio e as condições não são levados em consideração. Neste sentido, há uma fragmentação no relatar da violência, pois o assunto é tirado do seu contexto e retratado como algo isolado e fraturado.
Ao tomar o espetáculo como parâmetro, os programas de gênero policial conjugam a tarefa de informar à função de entreter, permitindo, assim, que a realidade em preto em branco dê o colorido necessário à ficção. No anseio de conseguir a atenção de uma faixa expressiva de público, o espetáculo informativo recorre a valores socialmente sedimentados, mensagens de fácil reconhecimento, estereótipos e lugares-comuns, valendo-se de trunfos como o sensacionalismo e o escândalo, mesmo que seja o grotesco. Com a utilização desses recursos, fica mais fácil banalizar temas de relevantes interesses públicos, quanto supervalorizar episódios banais do cotidiano. E é o que vamos encontrar, pela repetição e massificação de determinados fatos ou temáticas, à banalização da violência. A violência se torna algo comum e corriqueiro, parecendo comum aos olhos de quem assiste as imagens televisivas.
O sofrimento alheio ganha evidência tanto quanto a valorização de episódios trágicos ou sangrentos, mas não há reflexão a respeito das causas que condicionaram esses acontecimentos.
É importante destacar mais uma vez, que vivemos em um ambiente de mídia e a maior parte de nossos estímulos simbólicos vem dos meios de comunicação. A televisão, dentro desta perspectiva, modela a linguagem societal dos indivíduos. Portanto, o impacto social da televisão funciona no modo binário: estar ou não estar. Desde que uma mensagem esteja na televisão, ela poderá ser modificada, transformada ou subvertida. Mas em uma sociedade organizada em torno da grande mídia, com certeza, a verdade é aquela anunciada pelos meios de comunicação. Ou seja, a condição de existência dos acontecimentos é a sua construção na mídia. Só é reconhecido como existente aquilo que é construído como realidade pelos meios de comunicação. A realidade passa a se constituir, em parte, em função da mídia, perdendo desse modo, sua autonomia. O real é aquilo que os meios constroem a seu respeito.
Nesta perspectiva há uma cultura veiculada pela mídia cujas imagens, sons e espetáculos ajudam a urdir o tecido social da vida cotidiana, dominando o tempo de lazer, modelando opiniões políticas e comportamentos sociais, e fornecendo o material com que as pessoas criam sua identidade. A televisão ajuda a modelar a visão prevalecente de mundo e os valores mais profundos: define o que é considerado bom ou mau, positivo ou negativo, moral ou imoral. As narrativas e as imagens veiculadas pela mídia fornecem os símbolos, os mitos e os recursos que ajudam a constituir uma cultura comum para a maioria dos indivíduos em muitas regiões do mundo de hoje. Por isso, a relevância de se levar em consideração os discursos emanados desse meio de comunicação, que faz circular significados; é capaz de produzir significados que servem aos interesses tanto das empresas de comunicação como dos telespectadores, assim também sua influência na divulgação de fatos que fazem parte de nossa realidade social.
Evidentemente, que não foi possível esgotar a discussão dessa questão, amplos são os caminhos e possibilidades, pois esse campo da “violência” ainda é obscuro e necessita de profundas pesquisas e reflexões, principalmente no que concerne sua divulgação pela televisão. È necessário compreender até que ponto os meios de comunicação, em particular, a televisão, tem sua fatia de contribuição e de influência na proliferação da mesma, uma vez que ela passa a difundir violências de toda ordem, assim como, banalizam o seu tratamento ou até mesmo espetacularizam com a finalidade de atingir os objetivos das empresas de comunicação.
Nessa contextualização do papel dos meios de comunicação, temos que levar em consideração que multiplicam-se as categorias de percepção da violência, E diante de tal fato, os meios passam a funcionam como um tipo de tribunal do júri, antecipando ou dando a sentença, seja em termos de condenação ou absolvição de um suspeito.
É pertinente reafirmar que essa sociedade denominada da comunicação transformou por completo o mundo contemporâneo, as pessoas compreendem hoje os fenômenos, as questões a partir da construção que delas fazem os meios de comunicação. Com certeza, entre todos os territórios da comunicação, talvez o mais familiar para os contemporâneos seja a televisão. Essa mídia transformou verdadeiramente a paisagem de nossa sociedade. Ela se impôs às massas, de forma a dar sentido aos acontecimentos da vida.
Portanto, acreditamos que a mídia, enquanto instituição tem um papel fundamental, além de informar, esclarecer deve debater com a sociedade os fenômenos sociais que afligem a vida. É necessário haver uma desconstrução da violência, elaborar com a sociedade civil mecanismos eficazes de combate à mesma. Se os meios de comunicação na atualidade desempenham muitas vezes o papel da polícia e da justiça – papel que não lhes cabe, pois sua finalidade é divulgar a informação com veracidade e imparcialidade –, seria conveniente que eles colaborassem para o esclarecimento das causas que fazem da contemporaneidade um período histórico tão violento.
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