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| Eric Nepomuceno |
“O Massacre”. Esse é o título do último livro do jornalista paulistano Eric Nepomuceno, publicado pela editora Planeta. O escritor, que também é tradutor de livros de Gabriel Garcia Márquez e já foi correspondente de grandes jornais como o espanhol “El País”, dedicou anos de pesquisa sobre um dos mais chocantes episódios de conflito agrário do Brasil, o massacre de Eldorado do Carajás, em 17 abril de 1996.
Eric esteve em Belém para lançar o livro e conversar com o público, e concedeu entrevista especial à equipe de Comunicação do Governo do Estado.
Secom - Por que escrever um livro sobre a história do massacre de Eldorado dos Carajás?
Eric Nepomuceno – Primeiro porque eu acho que foi um crime brutal, em que há um reflexo muito claro dos desvios e das distorções da sociedade brasileira, do sistema de poder no Brasil. E segundo, pra tentar ajudar que essa história não caia no esquecimento, porque o esquecido se repete. Eu acho que o passado tem essa grande vantagem: da gente lembrar dele pra impedir que ele se repita.
Secom – O que mais te chocou no caso?
Eric Nepomuceno – Primeiro a violência, a barbaridade. Quem se dedicar a ler os laudos necrológicos dos 19 mortos vai ver que aquilo foi uma ação baseada na fúria, na sanha, no descontrole. Como se fosse preciso matar mais de uma vez a mesma vida. Essa foi a primeira coisa que me impressionou muito. A segunda coisa que me impressionou muito, quando eu tive lá na Vila 17 de Abril [assentamento onde moram os sobreviventes], foi a dignidade dos sobreviventes, a dignidade das pessoas, o olho das pessoas. E a terceira coisa que ainda me impressiona muito é a impunidade. Eu acho que o Brasil discute muito a pequena impunidade e deixa de lado, porque convém ao sistema que assim seja, a grande impunidade... A impunidade de quem mobiliza a força de ordem pública pra defender com forço o interesse privado.
Secom – Quanto tempo durou o trabalho de pesquisa que resultou no livro e como você teve acesso a tantas informações, porque sabemos que existem várias histórias desencontradas. No decorrer desses 11 anos, escutamos muito aqui no Pará falar sobre esse caso, e muita coisa é boataria. Como é que você chegou a conclusão de que esses fatos realmente aconteceram?
Eric Nepomuceno – Quanto à boataria, eu acho que no imaginário popular histórias assim tão marcantes, tão profundamente violentas, geram mesmo versões. Eu vou traçar um paralelo entre a ficção e a realidade, a literatura de ficção e a literatura de não-ficção. Em Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Márquez descreve o massacre de camponeses das plantações de banana, e ele descreve em minúcias os 3 mil mortos e um trem de 200 vagões que levou esses cadáveres para jogar no mar. Esse livro foi escrito em 1966, foi editado em 1967 e até hoje oficialmente na Colômbia é celebrada a memória dos 3 mil mortos do massacre das bananeiras. Na verdade, foram quatro mortes, ou seja, o imaginário popular tão bem retratado pelo Garcia Márquez, ao errar na aritmética, acerta na realidade, acerta no impacto daquelas mortes. Portanto, ali no caso de Eldorado do Carajás, eu vi histórias tenebrosas, de cadáveres desaparecidos, de crianças assassinadas, de fossas, de corpos jogados em rio, e eu não encontrei nenhuma vidência, nenhum indício concreto de que isso pudesse ser realidade ou pudesse ter acontecido. Como é um livro de não-ficção, essas histórias não entraram. Tudo o que entrou no livro foi confirmado pelo menos por três fontes diferentes. Segundo, como reconstituir essa história? Buscando os fios soltos. Eu não estava em Eldorado do Carajás em abril de 96, aliás, eu nem nunca tinha estado no Pará antes de começar a escrever esse livro. Tinha e tenho queridos amigos e amigas paraenses, mas eu nunca tinha estado aqui. Eu me dediquei a ler as quase 20 mil páginas do inquérito policial militar, o inquérito da polícia civil, os autos do primeiro julgamento e eu entrevistei 32 pessoas, algumas delas mais de uma vez. Eu li um oceano de ensaios, material de imprensa, arquivo da imprensa que tratou do caso, e aí eu fui reconstituindo e claro, basicamente, os depoimentos dos sobreviventes. Eu não pude ouvir os acusados, eu não tive acesso aos acusados. Tive acesso, sim, aos advogados dos dois oficiais militares da polícia, que na época até estavam detidos. Da soma disso tudo eu construí a história.
Secom – Como tem sido a aceitação do livro?
Eric Nepomuceno – Eu posso medir a reação de pessoas com as quais eu tenho falado em palestras, em debates que eu tenho feito no Rio, São Paulo, em Manaus, em Belém. Porque eu não tenho tanto interesse de difundir o livro, como eu tenho de difundir a história, a história que o livro conta. É uma reação de “puxa, é mesmo! A gente tinha esquecido”. Eu, às vezes, vejo o público assim, um tanto estarrecido, não porque eu esteja contando uma novidade tremenda, não! Porque eles percebem que essa história estava em algum desvão da memória, alguma gaveta fechada da memória. O livro teve uma repercussão curiosa na imprensa, porque os jornais do Rio e de São Paulo, com exceção de O Estado de São Paulo, que fez uma resenha de meia página, os outros jornais ignoraram o livro olimpicamente, é um livro que nunca existiu. Curiosamente, em outras capitais do Brasil a repercussão do livro foi muito grande, muito grande, com muito espaço nos jornais. E graças a esse livro eu descobri um universo, que talvez por problema de geração, eu não tinha muito contato, que é o universo da internet. Que dizer, esse livro tem mais de 400 entradas no google. Ou seja, é um livro que eu sinto que está vivo para o público que me interessava atingir.
Secom - Você falou que já fez vários debates e conversas a respeito do massacre de Eldorado. Como tem sido esses debates? O livro já chegou a ser discutido fora do país?
Eric Nepomuceno – A gente tem de levar em consideração uma coisa, o dia 17 de abril é o Dia Mundial de Luta pela Terra. A raiz de Eldorado do Carajás é sempre celebrada no mundo inteiro com debates, porque o problema da terra não é um problema exclusivo do Pará e do Brasil, é um problema que afeta muita gente e que chama atenção em muitos países da Europa, por exemplo. Então, há um ano, quando foi o décimo aniversário do massacre, eu fui convidado para ir à Buenos Aires ler trechos do livro, porque o livro ainda não tava nem terminado. E eu levei um susto, porque era um auditório da universidade e havia sei lá, 500 pessoas, 600 pessoas. Eu achei que eu tinha errado de porta, falei: não é que aqui, deve ser em outra sala. E era lá mesmo. Foi um debate que durou quase duas horas. Na mesma ocasião, o jornal mais importante da Espanha, o El Pais, publicou três trechos do livro com uma enorme repercussão. Eu recebi e-mail tanto de amigos, de quem eu tinha perdido a pista, como de pessoas que eu nunca vi na vida, que escreviam pro jornal, que encaminhava os e-mail pra mim. Eu recebi e-mails até da Holanda, de Portugal, da França. Ou seja, é um estigma brasileiro o “17 de Abril”, e esse estigma deveria ser motivo para que a gente repensasse na impunidade. Porque eu sempre digo, porque é uma convicção minha, eu cheguei a está convicção, o que aconteceu em Eldorado de Carajás é emblemático, é simbólico, porque ali havia dois cinegrafistas, havia uma repórter e, no dia seguinte, chegou lá Sebastião Salgado, que é o fotojornalista mais importante do mundo e difundiu essa história para o mundo. Por isso, ele é tão emblemático, mas, infelizmente, está longe de ser um caso isolado.
Secom – Como você avalia a situação das famílias hoje?
Eric Nepomuceno – Bom, aqui a gente tem três vertentes em relação às famílias. Uma, os mutilados físicos, que até abril de 2007 nunca mereceram o reconhecimento e o respeito do Estado do Pará, do Governo do Pará. Onze anos depois, pela primeira vez, alguém, a governadora no caso, foi lá e deu início a uma coisa minimamente respeitosa. Eu poderia, falando em termos mais duros, minimamente decente. Quer dizer, 11 anos depois, alguém teve a decência de chegar e olhar nos olhos das vítimas de uma ação, cuja a responsabilidade é do Governo, é do Estado do Pará. Então, esses mutilados reclamavam desse abandono. Agora, todos os outros sobreviventes que não trazem seqüelas físicas são mutilados na alma, são mutilados na memória. E terceira impressão é que eles, de alguma forma, chegaram ao sonho o qual eles poucas vezes tiveram a ousadia de sonhar, que é um pedaço de chão embaixo do pé, um teto sobre a cabeça e uma parede onde por a mão. Eles são donos daquela terra, é uma vida extremamente sacrificada, extremamente modesta, é uma vida extremamente limpa. Daí a dignidade que tanto me impressionou. |