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Emir Sader
Emir Sader nasceu em São Paulo, no ano de 1943. Formou-se em Filosofia na Universidade de São Paulo. Fez Mestrado em Filosofia Política e Doutorado em Ciência Política, ambos na USP. Na mesma universidade, trabalhou como professor de filosofia e ciência política. Foi pesquisador do Centro de Estudos Sócio-econômicos da Universidade do Chile; professor de Política na Universidade de Campinas; e coordenador do curso de Especialização em Políticas Sociais, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente, dirige o Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, onde é professor de sociologia.

Em novembro, Emir Sader esteve no Pará, como convidado para o lançamento do Projeto “Papo de Mestre”, da Secretaria de Estado de Educação, que visa promover encontros mensais entre grandes pensadores e professores da rede estadual de ensino.

Secom - Como foi que você começou sua relação com a política e a filosofia?

Emir Sader - Eu comecei a me interessar pelas coisas, pela militância política, no ano da vitória da Revolução Cubana, que era uma vitória de um movimento político. Enquanto o Brasil estava num processo que chegou à Ditadura Militar, Cuba estava num processo de resgate da identidade, de campanha contra o analfabetismo, de soberania nacional, de fundação da Casa das Américas e concursos culturais que faziam os latino-americanos se conhecerem entre si. Então, eu comecei ali, no tempo que eu entrava na universidade. Estudar Filosofia porque buscar o sentido, o significado das coisas. A filosofia, como se diz, é uma coisa tal sem o qual o mundo seria tal e qual. A filosofia serve pra entender o significado das coisas. Então foi isso que me atraiu. Eu estudei na Universidade de São Paulo. Eu sempre estudei em escola pública: o primário, o colégio, o noturno, a universidade. Tudo o que eu sei, que eu tenho, que eu devo, é vindo do ensino público e da militância política. Também fui professor, sempre em universidade pública, na Universidade de São Paulo, onde eu me aposentei. Hoje dirijo o laboratório de políticas públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde tem mestrado e doutorado em políticas públicas.

Secom – Você é um crítico do atual modelo econômico. Como é que você avalia a política adotada pelo governo brasileiro?

Emir Sader - Nós estamos lutando para conseguir construir um mundo pós-neoliberal, anti-neoliberal. O neo-liberalismo, sobretudo, caçou e expropriou direitos. O que o liberalismo mais quer é mercantilizar tudo, criar um mundo onde tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra. Até a água agora é comprada. O ar daqui a pouco vai ser mercantilizado. Direitos como a educação e a saúde são comprados. Quem tem dinheiro se vira, quem não tem está prejudicado. Então, há um dilema entre a construção desse mundo e a construção de um mundo que universaliza direitos, um mundo em que o predomínio é da esfera pública. Os Estados devem ser refundados em torno não dos interesses privados, mercantis, financeiros, mas dos interesses democráticos, universais de generalização de direitos. Então, eu acho que esse é o tema central da luta contra o neo-liberalismo: polarização entre esfera pública e esfera mercantil e disputar o Estado para que ele seja um Estado que reflete os interesses da maioria, os interesses públicos.

Secom - Por falar em direitos democráticos, o que é democracia para o senhor?

Emir Sader - O Brasil é um país considerado democrático porque tem eleições periodicamente; tem partidos políticos; tem separação de executivo, legislativo e judiciário; tem o que se chama de imprensa livre. O que é que é imprensa livre? É imprensa privada. Ela não é livre, sendo privada ela se deve aos financiadores, que não são os leitores, são as agências privadas de publicidade que financiam o jornal. O Brasil se trata de democracia política, mas de uma ditadura social. Porque é o país mais injusto do mundo. Significa que a mesma elite reproduz o acesso, ao logo do tempo, aos bens materiais e espirituais. O Brasil é uma imensa ditadura social. O que nós queremos é construir uma democracia com alma social, uma democracia que reflita os interesses da maioria. Enquanto o Brasil refletir os interesses de uma pequena minoria, não é, no sentido social da palavra, no sentido cultural da palavra, uma democracia. Construir uma democracia significa democratizar a construção da opinião pública. Recentemente um jornalista brasileiro, desses dos grandes órgãos privados, até disse que o povo brasileiro votou contra a opinião pública, quer dizer que a construção da opinião pública é minoritária, só que eles tentam fazer passar como se fosse da maioria da população. Então, sem a construção de um consenso democrático no seu processo de formação, na participação da maioria na cidadania, não haverá democracia. No Brasil, ainda se estabelece sistemas prioritários e tal é o ponto de vista prioritário, e querem fazer passar ao país que eles, que são algumas famílias – Frias, Marinho, Mesquita, Tívitas, por exemplo - que dominam a capacidade de transmitir idéias, se é que a gente pode chamar de idéias, digamos, valores que são os valores deles, tendendo a passar por valores gerais na sociedade. Sem isso não se constrói democracia, porque democracia não é só acesso a bens, mesmo assim já não terminou a democracia. Mas além do mais, é uma democracia cultural, espiritual. É uma democracia que expresse valores e os valores dominante hoje são os valores das classes dominantes.

Secom - O presidente Lula desde seu primeiro mandato tem sido constantemente criticado pela mídia brasileira. Como você avalia o atual cenário da política brasileira?

Emir Sader – É uma situação contraditória, porque como o próprio presidente Lula diz, os banqueiros nunca ganharam tanto, mas nunca melhorou tanto a situação dos pobres. Isso se dá porque é um governo que pela primeira vez faz políticas de assistência social sistemáticas. Então, o Brasil melhorou um pouco o grau de desigualdade pela primeira vez no país, o que não fala muito bem do governo, fala muito mal dos governos anteriores, mesmo o governo Fernando Henrique Cardoso com dona Ruth Cardoso dirigindo políticas sociais, o Brasil não melhorou. Ao contrário, o Brasil perdeu patrimônio público, o Brasil privatizou, entregou a preço de banana riquezas construídas com o suor do povo brasileiro ao longo do tempo. Então é um governo que melhorou a situação da massa da população, sem ter mexido no essencial que é a política econômica. Então, isso inviabiliza ter, por exemplo, uma melhoria mais generalizada da situação da classe média ou dos pobres mesmo do país. A situação é contraditória mesmo. Agora, mesmo um governo moderado como esse, a direita brasileira, a elite brasileira, tão conservadora, nem desse governo ela gosta. Por quê? Ela quer o quê? Menos impostos. O que significa menos impostos? Menos solidariedade com as políticas sociais que o governo faz. O quê que ela quer? Menos Estado. Menos Estado quer dizer o quê? Mais mercado. Ela quer o que? Quer identificação da economia brasileira com o norte do mundo, não a solidariedade, as políticas do sul, de integração regional. O que é livre comércio. O que significa o livre comércio? As grandes empresas fazem o que bem entendem, não há defesa dos medicamentos, dos remédios genéricos, não há defesa da regulamentação do meio ambiente. Valeriam as leis da oferta e da procura, que é o que devasta os países que fazem acordo de livre comércio com os EUA. Então a maioria está muito conservadora, apesar de o país estar mal, ela está bem. Porque o que ela quer é preservação dos direitos que ela tem. Não quer nenhuma regulamentação dos financiamentos estatais. Os meios de comunicação são limitados, principalmente dos de televisão. Então eles não podem ser propriedade de ninguém privadamente. Tem que ser decidido coletivamente, por quem vai usufruir. O governo tem todo o direito de ter uma televisão estatal e pública, conforme ele decida, porque a maior pesquisa de opinião pública qual foi? Não é a que diz que a Globo tem tantos espectadores, é a que elegeu e reelegeu o presidente da república. O governo tem a obrigação de dizer o que faz, por que faz e de ouvir as críticas nesse espaço de porque não faz mais e o que está  fazendo errado. Então é um espaço obrigatório. O espaço privado é um espaço mercantilizado, ele é financiado com a publicidade. Que moral ele tem, que força ele tem pra criticar os bancos, que não são os bancos que financiam o consumo, vivem à custa – na verdade – da dívida pública, vivem da especulação. E quando alguma atividade do governo não interessa, eles ameaçam ir embora e desestabilizar o país. Agora, que moral tem essa imprensa privada que dá páginas, páginas não! Que vende páginas imensas com os balanços dos bancos. Ao contrário do que os jornais às vezes dizem que não têm o rabo preso, têm todos os rabos presos, porque está preso aos interesses privados. Ela trata a CUT e o MST da mesma forma que trata o Bradesco e o Itaú? Vamos saber qual é o caráter de classe dessa imprensa que está aí. Então, eles ficam crendo que toda alternativa de imprensa é estatizante. E eles são o que? São mercantilizados. O Estado pelo menos é eleito pela maioria da população. O Presidente da República pode ser pressionado, pode ser derrubado numa próxima eleição. Enquanto que eles não! Quem que dirige cada jornal? É o filho do dono. Quem elege o diretor-chefe da Folha de São Paulo? É por acaso que ele chama Octavio Frias Filho? Que democracia interna exista na redação do jornal? Não para eleger, mas para decidir qual é a pauta do jornal. Os jornalistas são melhores que os donos dos jornais, mas eles recebem a pauta de quem está lá. Os Marinhos estão aí... O filho do Roberto Marinho é o melhor cara para dirigir a Globo ou ele está lá por uma relação sanguínea? São essas poucas pessoas que dominam a formação da opinião pública brasileira e se dá ao direito de dizer quem é democrático e não é; que Governo não é democrático, que MST não é democrático. E eles? Todo no tema de democratização dentro de uma redação de jornal.

Secom – Falando agora sobre uma questão complicada: em novembro de 2006 você foi condenado por injúria, calúnia e difamação com pena de um ano de detenção, em regime semi-aberto, além de perder seu cargo como professor da UERJ, por ter intitulado de “racista” o senador do DEM Jorge Bornhausen em um artigo seu na revista Carta Maior. No artigo você dizia Bornhausen teria utilizado o termo “raça” de forma discriminatória referindo-se a população “negra, pobre, suja e bruta”.

Emir Sader - Não, não é uma questão delicada, é uma questão pública. Eu fui condenado por nenhuma atividade pessoal e privada. O Senador Jorge Bornhausen foi governador biônico Santa Catarina durante o pior governo da ditadura brasileira, que era o Médice. Não foi eleito pelo povo de Santa Catarina, tinha um banco privado, sua família tinha um banco. No momento que achavam que iam derrubar o governo Lula, exorbitou na linguagem e falou publicamente o que a elite branca costuma dizer: que maltrata o povo de raça. Não etnicamente falando, mas uma forma depreciativa. Ele falou: vamos acabar com essa raça em 30 anos. O racismo é um crime inafiançável no Brasil. Se tivesse sido processado naquele tempo, ele ia para a cadeia. Aí, ele é que me processou por um artigo violento que eu fiz, não por mim – eu não sou discriminado, eu tive os privilégios do Brasil – mas por aqueles que não têm voz pra falar. Os jornais que deram espaço para o Bornhausen foram entrevistar o líder do movimento negro? Foram entrevistar um quilombola para saber o que eles têm a dizer? Não, não deu nada. Quer dizer, não se discutiu, não houve nenhum editorial indignado desses jornais. Então, eu fiz um breve artigo, em uma pequena agência alternativa, dizendo o que eu acho do Senador, e ele me processou por calúnia, infâmia e difamação. Aí, um juiz me condenou à prisão por um crime – suposto crime – de opinião. Como a condenação que eu tinha na Ditadura Militar, a qual ele pertenceu, tinha vencido pela anistia, eu sou réu primário. Então, eu fui condenado a um ano de prisão por crime de opinião de chamar de racista quem usou uma expressão como esta. Eu teria que prestar um ano de serviço à comunidade – o que faria com grande gosto, certamente faria lá na escola  do MST, coisa que eu faço independente de ser condenado ou não. Mas tem uma apelação e além do mais, cassariam o meu direito de ser professor universitário, que eu conquistei com concurso público. Jorge Bornhausen dirigiu um banco, foi governador biônico sem ser submetido à decisão popular; foi nomeado de cima pra baixo. Bom, tem um recurso que está correndo na justiça, o Ministério Público se pronunciou brutalmente contra a opinião daquele juiz e está correndo o processo. Agora, ele ainda botou um recurso porque quer que eu seja condenado não apenas por injúria, mas por calúnia e difamação. Na verdade a justiça do Brasil é uma justiça de classe. Pode acontecer que um juiz, isso não me causa temeridade alguma, até porque eu não tive medo do Bornhausen quando ele era ditador de uma ditadura militar, fui para a clandestinidade e continuei aqui, não vou ter medo agora. Mas quanta gente não se assusta? Com o processo, eu tive um manifesto de solidariedade comigo de 20 mil pessoas, assinado pelo Chico Buarque, pelo Veríssimo, Antônio Campos. Mas quanta gente é discriminada cotidianamente na empresa, no trabalho, na rua, no transporte e não tem essa possibilidade, não é? Esse é o cotidiano do Brasil. É o cotidiano da famosa raça que o Bornhausen tratou de desqualificar.

Secom – Você disse que estudou toda sua vida em escola pública. Como você avalia o ensino público no país?

Emir Sader – No Brasil e na América Latina, quando se mercantiliza e se privatiza uma esfera, ela se desmocratiza. O que era direito à educação se transformou em um privilégio de alguns. Veja a rebelião de setores da opinião pública, da sociedade, em relação a política de cotas. Política de cotas é dar um espaço mínimo, não de privilégio, de reconhecimento, que foram postergados para setores da sociedade. Os escravos, que foram os primeiros trabalhadores do Brasil trazidos violentamente da África para cá, morriam ao longo da viagem e quando aqui viviam sete anos de vida média, porque era tão barato que era mais fácil deixar morrer. Que reconhecimento o Brasil teve em relação a eles? Criaram as riquezas do Brasil e as riquezas dos colonizadores para viver bem na Europa e foram trazidos para um continente alheio para viver discriminados, criando riquezas para os brancos. Agora a política de cotas dá um espaço de reconhecimento para certos setores. A lei do governo federal quando se realizar plenamente vai garantir 50% de vagas na universidade pública, para quem estudou em escola pública. Se eles acham tão boa a escola privada, tanto que seus filhos estudam na escola privada, que os coloquem também em uma universidade privada. Que ponha seu filho para estudar medicina ou direito na faculdade privada. Deixa a universidade pública, que é subsidiada pelo Estado, para quem de vem de setores públicos.

Secom - Você ainda acredita na escola pública...

Emir Sader - Eu acredito. A educação pública é democratizável; a educação privada é custo-benefício. Vai no ensino público e vê se tem carreira, se tem pesquisa. Por que é que fecham determinado curso? Porque não tem aluno. A universidade pública dá curso da maneira que tem que ser melhorada e mais democratizada. O ensino privado funciona na base da oferta e da procura.

Secom – A Secretaria de Estado de Educação criou o projeto “Papo de Mestre”. O que você acha de iniciativas como esta, que buscam fomentar um debate crítico entre grandes pensadores como você e educadores da rede pública de ensino do Pará?

Emir Sader - Nas campanhas eleitorais todo mundo diz que a educação é a salvação da lavoura e depois ela desaparece. Onde foi que se acabou com o analfabetismo na América Latina? Quando se acabou com o analfabetismo na Venezuela, apoiado pelos educadores cubanos? Não foi na esfera privada, foi na esfera pública. O Brasil tem o melhor método de alfabetização do mundo, que é o método Paulo Freire. E quantos milhões de analfabetos nós continuamos a ter? Três em cada quatro brasileiros são analfabetos funcionais. Não tem acesso ao mínimo de conhecimento. O Brasil tem um extraordinário método, mas não privilegia a educação. Esse trabalho de valorizar o educador que está sendo feito aqui é o que tem que se feito, fora dos holofotes eleitorais, e não só naquela hora, não é? É na hora da política cotidiana. Valorizar no sentido de melhorar sua formação, melhorar sua remuneração, dar importância para a escola pública, afinal a maior parte dos estudantes brasileiros estão na escola pública. Mas, o tema central no Brasil é melhorar as condições da escola pública, democratizar  de verdade e dar acesso ao conhecimento. Essa melhora não se faz com telenovela ou futebol. É com é cultura, literatura. A maioria dos brasileiros não sabe quem foi Machado de Assis. Não damos direito. Eles podem não gostar, mas tem o direito de conhecer Machado de Assis, conhecer Villa Lobos, conhecer Carlos Drummond de Andrade. Nós negamos a eles esse direito de conhecer aquilo que de melhor o Brasil tem. A condição disso é terminar com o analfabetismo, qualificar melhor a escola pública, ter um diálogo melhor com os professores, aumentar o espaço da educação pública. Então, eu acho que é um bom caminho, é um bom começo, e eu espero que tenha um desdobramento nas políticas do governo do Estado.

Secom - Você também veio a Belém para lançar a Enciclopédia Contemporânea sobre a América Latina. Literatura reconhecida pelo prêmio Jabuti, como melhor livro de não ficção de 2007, mas que também é muito criticada pela mídia...

Emir Sader - A América Latina era um tema econômico financeiro de curto prazo. Só se falava da América Latina com crise financeira, privatização, bolsa de valores. Resolvemos resgatar a identidade latino-americana, através de uma enciclopédia, com todos os países da América Latina, com os temas e personagens principais da América Latina. Tudo financiado por empresas públicas, através da lei Rouanet. E nós estamos com muito orgulho trazendo essa enciclopédia aqui, que foi comprada pelo Governo do Estado, fazendo chegar para as bibliotecas públicas. Eu acho que é uma obra, que foi reconhecida, apesar da imprensa privada criticar muito, criticar com razão porque eles odeiam a América Latina. Não dá para falar de América Latina sem colonização, escravidão, imperialismo e etc. Sem falar de Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia. Mas fomos reconhecidos recebendo o prêmio Jabuti, de melhor livro de não-ficção do ano de 2007. Dois livros ganharam esse prêmio: o do Ferreira Goullart, de crônicas e contos, e o nosso, a enciclopédia feita coletivamente, e que teve a edição de uma editora paraense, de Belém do Pará, Ivana Jinkings, da editora Boi Tempo.

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